Em pleno inicio dos anos noventa o Tim, o Baltazar e o Joy estudaram o quinto e sexto ano num sistema de ensino, não muito conhecido pela maior
parte das pessoas, estudaram na chamada “telescola”. O nome é telescola, mas não quer
dizer que as aulas fossem somente via televisão. O principio de funcionamento
era ligeiramente diferente, somente os resumos das aulas eram através de uma
cassete de vídeo transmitida na televisão da escola, depois a professora
prosseguia com as aulas através de exercícios e exemplificações, idêntico ao sistema
normal de ensino.
Estes três miúdos tinham acabado de concluir a quarta classe
na aldeia onde moravam, o quinto e sexto ano era numa aldeia maior que a
deles, onde se concentravam os alunos vindos de várias outras aldeias.
Isto era uma experiência nova na vida deles, as aulas eram
durante a parte de tarde do dia, ao contrario da primária, que era durante a
manhã. Eles iam numa carrinha de doze lugares, a qual apanhava os alunos, aldeia em
aldeia, até chegar ao destino. O transporte de todos os alunos era feito em três viagens, onde na
primeira iam os miúdos da aldeia do Tim, do Joy e do Baltazar. A aldeia deles era
a mais afastada, mas isso não os impedia de serem os primeiros a chegar.
O motorista da carrinha era um senhor muito famoso nessa zona geográfica de
Portugal, chamava-se “Zé Trovoadas”, o nome assustava um pouco os miúdos, mas conhecendo
melhor o Trovoadas, ele era muito brincalhão. A experiência e a paciência para
aturar a canalhada já tinha décadas nos transportes.
A entrada destes três miúdos para o quinto ano de
escolaridade coincidiu com uma fase de transição e revisões na organização das infra-estruturas
escolares. Foi no inicio desse ano lectivo que deixou de haver telescola na aldeia deles.
Foi uma adaptação bem difícil! Não foi muito difícil para os miúdos, mas foi extremamente difícil
para quem os recebeu. Os habitantes dessa aldeia temiam a vinda dos alunos lá da terra dos pistoleiros e dos espadachins, temiam pelos estragos que essa
gente incompreendida poderia causar. A verdade é que foram mesmo muitos os
estragos que estes adolescentes causaram!
Rápido tiraram do sério, o Zé Trovoadas, que depois de uma
semana a transporta-los, começou logo a apelidar o Joy de “Trinta Diabos”.
Baltazar aproveitou a fama de pistoleiros para subir ao
poder na escola e tornar-se o chefe da miudagem. Começou logo, no primeiro dia de aulas, a elaborar uma
estratégia. Apesar de haver miúdos mais fortes do que ele, isso não o impediu de preparar uma estratégia triunfante,
posta em pratica após um mês de aulas.
A chave para o sucesso da conquista passou pelo amigo dele,
o Bruno, o rapaz tinha uma força impressionante para a idade. O Baltazar conhecia-o muito bem, ele tinha
de o provocar, motivar e planear bem o duelo contra o Pedro Jorge, o miúdo mais temido na escola. Se o Bruno ganhasse a briga ao Pedro Jorge, passaria
a ser olhado com muito medo por parte dos miúdos da escola. Ele usaria essa
vitoria e a amizade com o Bruno para impor as suas regras!
Assim aconteceu!
Depois da tareia que o Pedro Jorge levou,
ainda houve um grupo da terrinha dele que o tentou ajudar, mas aí Baltazar, Joy
e Tim, com a lição bem estudada amedrontaram de imediato essas crianças:
- Experimentem interferir, amanhã estamos aqui todos com as
pistolas dos nossos pais para vos mandar direitinhos para o cemitério! Com o
pessoal da nossa terra ninguém se mete! Isto foi só um aviso. Disse o Baltazar com um olhar de cão raivoso.
A partir daí o Baltazar era o miúdo que ditava as regras do
jogo, ele mandava no recreio, decidia as zonas onde as raparigas podiam
brincar aos elásticos, onde os rapazes jogavam futebol, as regras de uma
partida de futebol, e ainda era ele quem definia as equipas.
As aventuras mais marcantes naqueles dois anos tiveram
sempre como protagonistas: o Joy, o Tim, o Baltazar e o Bruno.
O Joy, entre outros
acontecimentos foi o responsável pela destruição dos anexos da escola, ele
conseguiu roubar uma caixa de bombas, para quem não conhece e ficar a saber a potência dessas bombas, quatro juntas fazem uma bela de
dinamite! Ele roubou as bombas à empresa que estava a construir da rede de abastecimento de água e esgotos naquela
aldeia. Com essas bombas destruiu parte dos anexos da escola, o reservatório de
água e ainda um moinho de pedra existente nas margens do rio. Durante uns
meses o Joy foi o verdadeiro talibã.
Baltazar além de dominar os colegas da escola também era o melhor
aluno, as professoras chamavam-lhe a “mente brilhante”, chegavam mesmo a dizer
que era o miúdo mais inteligente que já alguma vez tinha frequentado aquela
escola. Mas isso não quer dizer que as professoras não soubessem do seu mau
comportamento, da sua astúcia e da sua arte da guerra. Tenho a certeza que quando
o definiam como “inteligente” já a estavam a ter em consideração todos esses
aspectos. Realmente ele era um poço de informação, ele sabia de politica, de
futebol, de carros, de geografia e até de gajas ele já sabia umas coisas!
O Tim, o miúdo lamechas foi o protagonista do momento
mais romântico e hilariante ocorrido nessa escola. Com apenas dez anos casou-se no
ultimo dia de aulas do ano lectivo, ele frequentava o quinto ano e a miúda andava no sexto ano. Ela era, a mais bonita daquela escola, cabelo loiro e
olhos verdes, do mesmo nome da sua primeira paixão. A única diferença era a cor
dos olhos, de azuis passaram a verdes nesta sua nova princesa. Mas esta historia do Tim merece ser
relatada de uma forma mais pormenorizada noutro post deste blog.
Estes três jovens com a ajuda do Bruno foram os protagonistas
de um verdadeiro filme de terror, onde as professoras eram as personagens mais
assustadas.
Isto foi tão grave que a “Dona Lucília", a professora mais
velha daquela escola, temida pela sua rigidez com os alunos e a pouca
tolerância às distracções dentro da sala de aulas, pediu a reforma antecipada, três
meses depois do inicio do ano lectivo. Não aguentava mais aqueles traquinas
vindos lá do “meio do monte”.
Finais da década 80, o Tim andava na escola primária, tinha
chegado naquele verão quente à sua terra natal uma menina linda. Semelhante a
um malmequer, de olhos azuis, cabelo loiro, sorriso de princesa, lábios rosados
e um intuito de sabor a mel. Palavras doces saiam como musica da boca da
menina. Os miúdos da aldeia paralisavam ao vê-la passar, conversar ou sorrir.
O Tim não parava de pensar nela desde o primeiro dia em que
a viu a musa, sonhava com ela, e tremia como se estivesse febril quando o seu
olhar se cruzava com o dela. Espreitava pela janela do seu quarto nos momentos
em que sabia que ela ia passar por perto da sua casa.
O Tim estava a ficar doente de seu pobre e frágil coração, o
que era aquilo que lhe estava a acontecer?
Estas emoções estavam a deixar completamente descontrolada a
mente do pequeno Tim, perdeu a vontade de brincar com os amigos, a vontade de
sair de casa, só queria ficar deitado na cama a pensar na princesa que andava
sempre de sorriso aberto a deambular pelas ruas em calçada da aldeia.
O novo ano lectivo tinha começado e o Tim frequentava a
mesma turma da princesa, a personagem principal de todos os seus sonhos,
estivesse a dormir ou estivesse acordado, o filme era sempre o mesmo.
A partilhar com o Tim aquelas mesas duplas em madeira de
castanho bem claro, com uma inclinação de 35ºC, onde constavam inúmeras mensagens,
escritas por outros alunos que se tinham sentado lá em anos anteriores, fora
destinado pela professora, o rapaz que todos os velhotes diziam ser muito
simpático, O Danny.
Ele era o primo da menina encantadora, também havia
regressado do estrangeiro naquele verão. Dizia-se que era em definitivo! Os
pais já tinham ganho dinheiro suficiente para viverem felizes e para sempre na
Terra Natal! Com o passar do tempo, Danny e Tim tornaram-se nos melhores
amigos…
Dias e meses foram passando,
as coisas não mudavam, eram sonhos e mais sonhos, bloqueios de pensamentos
quando havia um sinal de aproximação da princesa. Então se lhe conseguia ver um
sorriso, sentia-se como um chocolate a derreter ao sol.
A cada semana aparecia um miúdo diferente a dizer que
namorava com a menina dos olhos azuis, cabelo loiro, sorriso de princesa,
lábios rosados e um intuito de sabor a mel.
O Tim todo preocupado lá ia perguntando ao Danny:
- Então a tua prima já namora?
A resposta era sempre a mesma:
- Achas mesmo? Ela quer é ouvir a musica que o irmão toca,
andar de bicicleta, e brincar com as bonecas…
O Irmão era um pouco mais velho que ela, cantor
profissional, a pessoa mais admirada lá da aldeia! Estes episódios aconteciam
sistematicamente… Eram facas a espetarem-se no coração de Tim!
Chegou o São Martinho, época de se fazer o tradicional
magusto na escola.
Comeram-se as castanhas e fez-se uma enorme festa, na
escola, o recreio tinha um socalco, e era lá que se simulavam os concertos com
pianistas, bateristas, cantores, guitarristas, era uma verdadeira animação. As
bandas simulavam tocar ao som de uma aparelhagem que a Princesa tinha levado
naquele dia, para dar musica à festa da escola.
A festa estava no fim, os professores e a maior parte dos
alunos já tinham regressado a casa, mas nesse dia, idêntico ao que era habitual
na maior parte dos dias de escola, o Tim e o Danny costumavam ir para uma zona
secreta comer bolachas de baunilha e conversar um bocado. Nesse dia o Tim ficou
para trás, ofereceu-se para levar a aparelhagem que Danny tinha ficado responsável
por levar à prima no final da festa! Aproveitou o momento para fazer uma canção
para a sua princesa e debita-la para uma das cassetes que estavam nessa
aparelhagem. Ora assim aconteceu, carregou no REC, a música era bem fácil, pois
já existia uma música conhecida com o nome da sua querida, foi canta-la com
todo o carinho e tentar desafinar o mínimo possível, por fim acrescentar “te
amo”, “te amo”… e pronto, assim se fez uma nova musica…
Devolveu a aparelhagem a Danny sem lhe dizer uma única palavra
sobre o que tinha feito. A cassete ia dentro, a sua esperança era que quando
ela carregasse no Play, a musica saísse e lhe fosse directa ao coração, como o som que
sai das flautas sopradas pelos artistas de rua na Índia e hipnotiza em segundos uma serpente!
Não aconteceu isso, apesar de ter estimado a dedicatória,
não gostou nada de ouvir a musica num encontro de família, onde estava presente
a mãe, a tia, o primo, o irmão e ainda mais uns amigos de família! Ora, esta
mensagem propagou-se como uma tempestade de verão por toda a aldeia, e claro
está, a miudagem não perdoa, e na semana seguinte todos cantavam a musica na
escola, até a professora cantou um bocadinho. O Tim não sabia onde se enfiar, a
vergonha era tanta, e o medo de rejeição ainda era maior, e o Danny, que
pensaria o Danny daquela infantilidade do Tim?
Custou-lhe de inicio enfrentar os miúdos, o seu grande amigo
Danny, mas custou-lhe ainda mais enfrentar a princesa amada. No meio disto
houve uma coisa positiva, agora nenhum outro rapaz dizia namorar com ela, ela
decididamente era nas bocas da rua a “namorada de Tim”, só mesmo nas bocas da
rua!
Entretanto, com o tempo, aquele que ninguém consegue
controlar, e naturalmente ajuda a cicatrizar feridas, esquecer sentimentos,
crescer as arvores e envelhecer as pessoas, também a nuvem de vergonha se
afastou de Tim. Voltou a conviver naturalmente com o Danny, o seu melhor amigo,
ganhou novos sorrisos da loirinha encantadora, e conseguiu manter esse seu amor
por ela bem camuflado, conseguia agora agir com naturalidade ao pé dela…
Perto do final desse mesmo ano lectivo, havia o famoso
passeio escolar de verão, onde se visitava “sempre” o Castelo de Guimarães, o
Jardim Zoológico e como não podia deixar de ser, para os miúdos do interior, o
mais importante, o “mar e a praia”, isso sim provocava-lhes um sorriso e uma
alegria estonteante!
No momento do regresso a casa, depois desse dia feliz e
desgastante, quando já vinham no autocarro uns miúdos a dormir, outros a
esforçarem-se para manter pelo menos um dos olhos aberto, o Tim observava a
princesa a dormir, com a cabeça no vidro, olhos fechados mas não apertados,
mantendo aquela suavidade, o sorriso mesmo assim permanecia na face, a pele
aparentava estar mais macia do que nunca. Ela que naquele dia se juntou ao
Danny e ao Tim, e os três partilharam as alegrias daquele passeio inesquecível…
O Tim estava nas nuvens, feliz, feliz, feliz… e enquanto olhava para a bela
adormecida, que estava sentada mesmo ao seu lado, estava também atento a tudo o
que estava ao seu redor e verificou que naquele preciso momento era a única
pessoa acordada com excepção do condutor do autocarro.
Eram vinte e uma hora, deviam estar a menos de duas horas de
chegar a casa, o autocarro estava calmamente circulando a uns noventa quilómetros
por hora, no céu brilhavam as estrelas e ao seu lado estava a lua, e foi num
momento irreflectido e deixando-se levar por algo que não se sabe bem o quê,
aproximou-se do vidro e, derramando uma lágrima de felicidade, ao mesmo tempo
acompanhada de ternura e emoção, foi por breves segundos, mas naquele instante…
PS: Ainda hoje, a agora senhora professora, mãe de uma
criança linda e casada com um amigo de Tim diz guardar aquela cassete, bem
guardadinha, no seu Baú de recordações!